A temporada de outono-inverno 2026 da Semana de Alta-Costura de Paris transportou a plateia para um universo onde moda, arte e emoção se entrelaçam. Abrindo os trabalhos com uma dose impactante de drama e surrealismo, a Schiaparelli trouxe à tona um futuro distópico que mexeu com os sentidos. Na sequência, nomes como Iris Van Herpen, Rahul Mishra, Giambattista Valli, Chanel e Balenciaga consolidaram o desfile como um verdadeiro espetáculo de ideias, técnica e beleza.
A Schiaparelli, sob direção criativa de Daniel Roseberry, reafirmou seu protagonismo ao lançar uma coleção inspirada em um mundo à beira do colapso. Com referências aos clássicos “Metrópolis” e “Blade Runner” e à indumentária dos toureiros espanhóis, os looks — todos pretos, com variações entre texturas rígidas e leves — eram adornados com bordados dourados e acessórios tecnológicos. O colar em forma de coração pulsante cravejado de pedrarias simbolizou essa fusão entre o humano e o robótico. Segundo Roseberry, a proposta era uma “despedida” simbólica: “Se queremos mudar o futuro, precisamos transformar o presente”.

Pouco depois, o desfile de Iris Van Herpen hipnotizou o público ao mergulhar na vida marinha. A estilista belga apresentou vestidos que pareciam flutuar, com tecidos como seda e organza que evocavam o movimento das algas no fundo do mar. O grande destaque foi o look “Visão Viva”, cultivado com 125 milhões de algas bioluminescentes vivas em gel marinho — uma obra-prima viva que reagia ao movimento e à luz.
Rahul Mishra, por sua vez, convidou a audiência a percorrer os sete estágios do amor. A coleção passeou por emoções profundas traduzidas em bordados, brilhos e formas que remetiam a faíscas e corações entrelaçados. Alguns vestidos remetiam diretamente à estética de Gustav Klimt, especialmente “O Beijo” e “Morte e Vida”. Os tecidos translúcidos simbolizavam a entrega total, enquanto os modelos metalizados expressavam a intensidade da paixão.

Giambattista Valli apostou em uma ode à feminilidade em sua forma mais romântica. Em um jardim florido que mesclava o século XVIII à elegância dos anos 1950, surgiram vestidos leves, esvoaçantes e marcados por grandes laços, rendas e cores suaves. A coleção foi descrita pela maison como “uma reverie pastoral onde beleza e mistério dançam em sintonia”.
Após uma pausa estratégica desde os desfiles masculinos, a Alta-Costura voltou a reunir nomes influentes do universo fashion em Paris. A ausência de grifes como Dior e Valentino abriu espaço para surpresas e estreias aguardadas, como a da Chanel, que apresentou sua última coleção antes da estreia de Mathieu Blazy no comando criativo.

A Chanel levou os convidados a uma viagem sensorial ao recriar, no Grand Palais, os salões originais de Gabrielle “Coco” Chanel. A decoração clássica — com espelhos, tapetes creme e cadeiras acolchoadas — deu o tom nostálgico à apresentação. A coleção celebrou a ligação da fundadora com a cultura britânica, especialmente o romance com o Duque de Westminster e a descoberta do tweed escocês. Entre os destaques: um casaco de tweed sobre saia plissada com renda, um vestido preto de cetim com cinto utilitário e um look em tweed verde-limão com saia drapeada azul-bebê. A modelo e musa da maison, Caroline de Maigret, definiu o desfile como “poderoso e delicado, quase gótico”.

Fechando com chave de ouro, a Balenciaga fez sua “chamada de cortina”. O estilista Demna apresentou sua última coleção para a marca antes de seguir para a Gucci. Celebridades como Kim Kardashian — que desfilou com um vestido em homenagem a Elizabeth Taylor — e Isabelle Huppert marcaram presença. A coleção brincou com os códigos da “burguesia”, incluindo vestidos-casaco com lapelas exageradas, silhuetas esculpidas em couro preto e releituras do clássico pied-de-poule. O toque afetivo ficou por conta das estampas florais enceradas, em alusão às toalhas da avó de Demna e sua origem na Vetements.
O primeiro dia da Alta-Costura de Paris mostrou que a moda segue sendo uma das maiores plataformas de reflexão contemporânea. Entre sentimentos, texturas, memórias e provocações, as passarelas foram mais que vitrines: tornaram-se palcos de emoções universais.
