Arquitetura que acolhe, cores que curam e casas que contam histórias: a palestra de , mais do que isso, nos fazem sentir. Foi exatamente essa a atmosfera criada durante as comemorações dos 45 anos da grife Yamor da Ethel, quando a arquiteta Mirian Bastos proferiu a palestra “Abram as janelas, deixem a luz entrar!”, apresentada por esta jornalista, em um encontro marcado por emoção, reflexão e beleza.
Desde os primeiros minutos, a palestra ativou algo raro: atenção plena. Afinal, Mirian Bastos não falou apenas de arquitetura. Ela falou de alma, de memória e de pertencimento. E fez isso conectando espaços, cores e emoções humanas, numa narrativa capaz de provocar identificação imediata.

Espaços que falam sobre quem somos
Logo no início, uma pergunta ecoou pelo ambiente e ficou reverberando: que histórias a nossa casa está contando sobre quem nós somos? A partir daí, Mirian conduziu o público por um percurso sensível, mostrando que casas não são objetos inertes. Pelo contrário, são organismos vivos, com corpo, marcas e alma.
Segundo a arquiteta, acontecimentos da vida podem apagar o brilho no olhar. No entanto, também podem silenciar o cuidado com aquilo que nos representa. Assim, móveis sem reparo, paredes esquecidas e ambientes estagnados tornam-se pistas visíveis de processos internos não resolvidos.
Nesse sentido, a casa passa a ser um espelho emocional. Uma mente rígida, presa ao passado, tende a se refletir em espaços onde nada muda. Por outro lado, uma vida excessivamente líquida, como descreve o sociólogo Zygmunt Bauman, gera casas sem memória, onde tudo se substitui rápido demais.https://robertafontellesphilomeno.com/ma-cherie-e-cajuina-sao-geraldo-lancam-collab-que-traduz-moda-e-orgulho-nordestino/
Entre a rigidez e a fluidez, nasce o lar
Mirian Bastos defendeu um ponto de equilíbrio essencial. Respeitar a própria história, sem deixar de dialogar com o presente, é o que transforma uma casa em lar. Assim, o novo e o antigo convivem em harmonia. É nesse encontro que mora a verdadeira sofisticação emocional.
Para ilustrar essa ideia, a arquiteta trouxe à cena o poeta Carlos Drummond de Andrade, ao descrever a casa viva como aquela onde livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Uma casa com vida, segundo Drummond, tem fogão gasto pelo uso e refeições que reúnem pessoas.
Essa imagem simples, porém poderosa, reforçou a ideia central da palestra: cuidar da casa é também cuidar de si.
A cor como linguagem da alma
Um dos momentos mais marcantes foi a abordagem sobre o poder das cores na arquitetura e na vida. Amparada na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, Mirian explicou que toda cor é um símbolo vivo. Ela atua como ponte entre consciente e inconsciente, razão e emoção.
As cores despertam memórias, afetos e imagens arquetípicas. Elas revelam estados da alma, mas também podem transformá-los. O vermelho, por exemplo, simboliza vida, paixão e energia criadora. Contudo, em excesso, pode gerar tensão e agressividade.
Nesse contexto, o uso consciente das cores na arquitetura se torna quase terapêutico. Quando palavras falham, as cores falam. Elas permitem que o inconsciente se manifeste, reorganizando espaços e, muitas vezes, sentimentos.

Arquitetura como cuidado e escuta
Para Mirian Bastos, o papel do arquiteto vai muito além da estética. Trata-se de escutar histórias, honrar trajetórias e criar possibilidades novas, sem apagar o que já existe. Uma casa não é uma roupa pronta. Ela precisa vestir a alma de quem a habita.
Por isso, respeitar móveis antigos, ressignificar objetos e experimentar novas linguagens são gestos de afeto. Ambientes vivos têm perfume, cor e presença. Nada permanece quebrado por descuido. Tudo é visto, tocado e cuidado.
Essa filosofia dialogou profundamente com o público presente, especialmente durante as comemorações da Yamor da Ethel, marca que celebra o feminino, a identidade e o tempo. Na mesma ocasião, Ethel Whitehurst relançou sua coleção de blusas, reafirmando a essência da grife: elegância atemporal, conforto e significado.
Mais do que casas, pessoas
Ao final, Mirian lembrou que ninguém entra em uma loja ou em um espaço apenas para comprar. As pessoas chegam em diferentes fases da vida. Algumas estão começando. Outras, recomeçando. E, muitas vezes, estão reformando a si mesmas.
Por isso, arquitetura, moda e design nunca são apenas sobre objetos. São sempre sobre pessoas. Sobre acolher, transformar e oferecer beleza como experiência emocional.
Encerrando novamente com Drummond, ficou o convite: arrume sua casa todos os dias, mas de um jeito que sobre tempo para viver nela. Reconhecer-se no próprio espaço é reconhecer o próprio lugar no mundo.
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Lá, histórias como essa ganham continuidade, contexto e inspiração diária. Porque viver bem começa pelo olhar e ele pode mudar tudo.